Custo mensal de medicações anti-glaucomatosas no Brasil
INTRODUÇÃO
Cerca de 5,2 milhões de pessoas apresentam cegueira causada pelo glaucoma, doença que representa a terceira maior causa de cegueira no mundo 1. Além disto, é uma doença com elevado impacto econômico para a sociedade, como sugerem os cerca de 2,5 bilhões de dólares gastos em 1988 nos E.U.A. no tratamento do glaucoma 2. Como toda doença crônica, o glaucoma apresenta problemas de aderência ao tratamento, que é influenciada por fatores como conhecimento sobre a doença, técnica correta de instilação, e o custo das medicações 3-6. Recentemente, houve um aumento considerável do arsenal terapêutico graças à introdução de novas drogas.
Se por um lado este fato traz um alento para o controle da moléstia, por outro, tende a elevar o custo do tratamento. Isto ocorre pelo aumento do número de medicações que podem ser usadas simultaneamente e pelo preço elevado das novas medicações, o que dificulta a aderência.
Entre os fatores que influenciam na escolha de uma determinada droga no tratamento do glaucoma, destacam-se a eficácia hipotensora, os efeitos colaterais associados ao seu uso, a posologia e o custo das medicações. Assim, este estudo se propõe a avaliar um destes fatores, ou seja, o custo mensal das medicações anti-glaucomatosas disponíveis no mercado nacional.
MATERIAL E MÉTODOS
Relacionaram-se as medicações usadas no tratamento do glaucoma disponíveis no país. Dentre os colírios estão: Os betabloqueadores (Timolol 0,25%®; Timolol 0,50%®; Timoptol 0,25%®; Timoptol 0,50%®; Timoptol XE 0,25%®; Timoptol XE 0,50%®; Betagan®; Glautimol®; Betoptic® e Betoptic S®); os colinérgicos (pilocarpina 2%®; Pilocarpina 4%® e Isoptocarpine®); os adrenérgicos (Propine®; Iopidine® e Alphagan®); os inibidores da anidrase carbônica tópicos (Trusopt®) e as prostaglandinas (Xalatan®). Também foi incluído o inibidor da anidrase carbônica de uso oral (Diamox®). Realizou-se levantamento de preço destas medicações em dez diferentes redes de farmácia de uma grande cidade do país (Campinas - SP), calculando-se o preço médio de cada apresentação.
Cinco frascos de cada uma das medicações foram obtidos junto a cada laboratório ou adquiridos em uma única farmácia, bem como uma caixa de Diamox®. Cinco gotas de cada frasco foram instiladas em uma superfície hidrofóbica (vidro Pyrex®) e tiveram seus volumes medidos isoladamente por uma mesma micropipeta (Nichipet-Nichiryo® modelo 5000 DE) e pelo mesmo examinador (JMAF). Procurou-se manter a mesma força de compressão e a mesma altura de gotejamento (05 cm). Com estes dados, calculou-se o volume médio de uma gota para cada medicação. O Diamox®, teve seu número de comprimidos confirmado por contagem simples.
Obtido o preço do medicamento, o volume da gota, o volume do frasco e a posologia sugeridos nas bulas, calculou-se o custo mensal de cada medicação.
RESULTADOS
A tabela 1 apresenta os resultados obtidos na análise dos colírios de betabloqueadores. A gota de menor volume médio gota foi o da droga Timoptol® 0,50% (27,2µl) e a de maior volume médio a do Betoptic S® (59,4µl). O Timoptol XE® 0,50% apresentou a maior duração em dias por frasco (168,35 dias), e o Timoptol® 0,50%, o maior número de gotas por frasco (183,82 gotas). Por outro lado, o Betoptic S® apresentou a menor duração em dias (42,08 dias) e o menor número de gotas por frasco (84,17 gotas). A mesma tabela mostra que o menor custo mensal entre os betabloqueadores foi o das seguintes apresentações: Timolol 0,25%®; Timoptol 0,25%® e Timoptol 0,50%® (R$ 2,10/olho). O maior custo mensal foi o do Betoptic S® (R$ 9,78/olho).
A tabela 2 mostra os resultados obtidos para os demais colírios, incluindo as novas drogas (Iopidine®, Alphagan®, Trusopt® e Xalatan®). Dentre estes, a apresentação do Trusopt® teve o maior volume médio por gota (48,2µl) e a menor duração em dias (51,86 dias), enquanto a do Alphagan® demonstrou menor custo mensal (R$13,02) e a do Xalatan®, a maior duração em dias (80,12 dias). Observa-se que as medicações mais antigas, como Propine®, Pilocarpina® e Isoptocarpine® apresentaram custos mensais (entre R$ 2,64 e R$ 6,36) menores que as novas drogas, porém maiores que os dos beta-bloqueadores (tabela 1).
A tabela 3 mostra os resultados obtidos para a apresentação do Diamox®. Seu custo mensal foi superior ao do Trusopt® (tabela 2) quando adotada a mesma posologia para ambas.
DISCUSSÃO
Ao prescrever medicações para o controle do glaucoma, devem-se avaliar diversos fatores tais como: o tipo de glaucoma, a pressão intra-ocular alvo, a posologia, a eficácia hipotensora, os efeitos colaterais e o custo de cada medicação. Este estudo se limita a avaliar este último aspecto, considerando sua importância e a pobreza de informações a respeito na literatura científica específica.
Um único examinador foi responsável por pingar medir os volumes das gotas, de modo a manter homogêneas a força de compressão dos frascos e a altura do gotejamento. Além disso, utilizou-se a mesma micropipeta, o que permitiu o cálculo do volume médio da gota.
Em relação aos betabloqueadores, classicamente usados como primeira linha na terapêutica anti-glaucomatosa 7, o Betoptic S® apresentou a menor duração em dias (42,08 dias) do frasco e o maior custo mensal (R$ 9,78/olho), considerando a posologia de uma gota duas vezes ao dia. Este achado é provavelmente decorrência da utilização de veículo mais viscoso no colírio Betoptic S®, o que poderia explicar o maior volume médio da gota (59,4µl) em relação ao volume do Betoptic® (28,4µl), cujo frasco é idêntico (informação do fabricante). Estes dados confirmam os achados de Stewart et al. 7, que utilizaram metodologia semelhante para calcular o custo diário de betabloqueadores no mercado norte-americano e confirmaram que o custo diário do Betoptic S® (US$ 1,60/olho) era superior ao dos demais. É interessante observar, entretanto, que o custo mensal do tratamento com betabloqueadores no Brasil é menor que o calculado nos E.U.A 7. Os betabloqueadores de menor custo mensal foram o Timolol 0,25%® e o Timoptol® 0,25% e 0,50% (R$ 2,10/olho). O Timoptol XE® 0,50%, cujo frasco apresentou maior preço (R$ 21,08), teve custo mensal menor que o Betoptic S®, além de ter sido a apresentação com maior duração em dias (168,65 dias), graças a posologia sugerida de 1x/dia.
O custo mensal do tratamento com as novas drogas mostrou-se maior que os das medicações mais antigas, como betabloqueadores e colinérgicos. No entanto, verificou-se que o custo não é tão elevado quanto o preço bruto das apresentações sugere. Este fato fica mais evidente quando se avaliam os custos no mercado (R$ 55,00) e do tratamento mensal por olho (R$ 20,60) do Xalatan®. Ressalta-se, ainda, que este custo é semelhante aos do Trusopt®, Iopidine® e Alphagan® quando utilizados 3 vezes por dia. O Trusopt® apresentou custo mensal inferior ao do Diamox®, quando usados em posologias equivalentes, desmistificando a falsa impressão gerada pelos preços brutos das apresentações.
Considerando-se que o salário mínimo de referência vigente no país é de R$ 130,00, o custos de algumas associações é excessivamente alto, admitindo-se o uso em ambos os olhos de um paciente com esta renda. Por exemplo, a associação de: Timoptol XE® 0,50%, Alphagan® e Xalatan® em ambos os olhos resultaria em um custo mensal de R$74,76. Por outro lado, há outras associações como: Timoptol ® 0,50% + Pilocarpina® 2% (R$ 12,36/mês), e Glautimol® + Propine® (R$ 13,26/mês), cujos custos são mais compatíveis com aquela renda.
Como limitações deste estudo, há de serem ressaltadas a não aferição dos volumes dos frascos e a não consideração de eventuais perdas de volume pelo paciente no momento da instilação dos colírios.
Este estudo aponta para uma grande variação do custo do tratamento do glaucoma com as medicações atualmente disponíveis no mercado nacional. O preço bruto das apresentações das medicações não deve ser considerado como único parâmetro na avaliação dos seus custos, uma vez que outros, como o volume da gota, o volume do frasco e a posologia influem decisivamente no custo real do tratamento. Observamos que as novas drogas introduzidas no mercado não apresentam custo mensal tão elevado quanto se supunha pela análise isolada do preço bruto da apresentação. Apesar disso, algumas associações de medicações tem alto custo mensal quando comparadas ao salário mínimo vigente no país, tornando limitado seu uso nas populações de menor poder aquisitivo.
SUMMARY
Purpose: To evaluate the monthly cost of antiglaucomatous drugs available in Brazil.
Material and Methods: Twenty antiglaucomatous drug preparations were obtained from the local manufacturers or were bought at a local drugstore. Five bottles of each preparation were used. Five drops of each bottle were dispensed and their volumes measured by the same examiner using a micropipette. The mean drop volume was calculated. Based on these data, on the volume of the bottles and on their prices, the authors calculated: days of therapy per bottle, cost of one drop, drops per bottle and monthly drug cost. The only tablet presentation (DiamoxTM) had its costs calculated based on the number of tablets per box.
Results: Among the betablockers, the Betoptic STM preparation was the most expensive (R$ 9.78/eye/month), where as TimololTM 0.25%, TimoptolTM 0.25% and 0.50% were the less expensive (R$ 2.10/eye/month). Among the new drugs, AlphaganTM, IopidineTM and TrusoptTM had costs between R$ 13.02 and R$ 15.60/eye/month when used b.i.d. and between R$ 19.53 and R$ 23.40/eye when used t.i.d. The XalatanTM preparation had a monthly cost of R$ 20.60/eye.
Conclusions: Drug costs may be influenced by factors other than the net bottle costs, such as posology, drop size and bottle volume. Some drug associations were found to be expensive when compared to the minimal national salary.
Keywords: Monthly cost; Drugs; Glaucoma; Therapy.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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2. Brubaker RF. Delayed Functional Loss in Glaucoma LII Edward Jackson Memorial Lecture [Letter]. Am J Ophthalmol 1996;121:473-83.
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4. Costa VP, Vasconcellos JP, Pelegrino M, Kara-José N. Análise da técnica de instilação de colírios em pacientes glaucomatosos. Rev Bras Oftalmol 1995;54:523-8.
5. Yasuoka ER, Mello PAA. Quem segue corretamente o tratamento clínico do Glaucoma? Arq Bras Oftalmol 1996;59:325-8.
6. Granström P. Glaucoma patients not compliant with theirdrug therapy: clinical and behavioural aspects. Br J Ophthalmol 1982;66:464-70.
7. Stewart WC et al. Daily Cost of B-adrenergic Blocker Therapy. Arch Ophthalmol 1997;115:853-6.
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